A herança de Giovanni Falcone
A morte de um homem de coragem é o retrato do nosso dia-a-dia
Desembargador Walter Felippe D'Agostino in «Jornal O Globo», 20 giugno 2002
Com a presença do cônsul da Italia e do diretor do Instituto de Cultura Italiana, a Escola de Magistratura do Rio de Janeiro acaba de realizar uma homenagem ao juiz italiano Giovanni Falcone, nascido em 1939 e assassinado brutalmente a 23 de maio de 1992 na localidade de Capaci, na Sicilia, às 17h58m de um sábado. Nesse dia e nessa hora, a Cosa Nostra saldava uma velha conta com o juiz que, mais que os outros, a havia combatido. Poder-se-ia perguntar: mas por que a homenagem pelos dez anos da morte desse magistrado que nem brasileiro era? A homenagem, organizada pelo desembargador Marcus Faver, presidente do Tribunal de Justiça deste estado, e com o apoio da Escola da Magistratura, pretende resgatar a vida e a morte de um homem de coragem, e tem toda relevância em face do que está acontecendo em nosso país, quem sabe no mundo, com o enfraquecimento das instituições, tornando cada ves mais difícil a convivência daqueles que respetiam as leis e querem viver em paz. Giovanni Falcone não é um mártir da Italia, é um mártir do mundo. Disse o desembargador Marcus Faver, na homenagem, que a Italia não é a Mafia. Dizemos nós, nem a Mafia é a Italia. O povo italiano tem vergonha dela e sofre por causa dela, seja na própria carne, seja quando, por causa disso, o próprio conceito do país é diminuído. A mostra fotográfica agora inaugurada pretende despertar uma cultura anti-Mafia, uma cultura anticrime e criminosos. O brutal incidente que vitimou Giovanni Falcone não enlutou apenas a sua família, mas também as dos seguranças que o acompanhavam, a de sua esposa, Francesca Morvillo, e também a família de Paolo Borsellino, amigo de Falcone, magistrado morto dias depois, em 19 de julho. Disse Falcone: “Morre-se generalmente porque se está só, ou porque se entrou em um jogo muito grande. Morre-se também porque não se dispõem das necessárias alianças, porque se é privado de sustentação.” Em toda esta situação, não pode o Estado deixar que a Mafia, ou grupos semelhantes, como o tráfico de drogas, o jogo do bicho, a corrupção politica e administrativa, atuem como na Sicilia, quando a Máfia golpeou os servidores do Estado porque o Estado não era competente para os proteger. A mostra fotográfica e a palestra tiveram por finalidade também registrar e homenagear aqueles que aqui morreram no cumprimento de seu dever. Para assassinar Falcone, uma estrada foi dinamitada com precisão cirúrgica, o que demonstra o aperfeiçoamento da societa cosa nostra. Compete à sociedade dos justos também se aprimorar para o enfrentamento dos que não cumprem a lei, onde quer que se encontrem. Não podemos deixar que aqui ocorra o que aconteceu no fatídico dia 23 de maio de 1992, para que não tenhamos o mesmo sentimento do senador e filósofo Norberto Bobbio, que declarou ao jornal La Stampa: “Envergonhome italianos mataram o juiz Falcone. Chegou o momento em que, se eu não fosse tão velho, iria embora deste país, pois não suporto mais o clima moral da Italia.” Quantos brasileiros já não pensaram da mesma forma? Não podemos aceitar o horror em que vivemos, com a violência que campeia e que a toda hora enluta as famílias brasileiras. Há uma profunda angústia, pois vivemos como vivia o povo italiano naquela época, período de profunda perturbação na ordem social, em autêntica dissolução moral. Os fora-da-lei fazem o que querem escolhem o momento para atuar, e os obstáculos colocados pela sociedade organizada são impotentes para impedi-los. “O monopólio da força está a toda hora sendo demonstrado”, disse Bobbio. “O anti-Estado é o verdadeiro Estado.” Logo após a morte de Falcone, os jovens e a população da Sicilia demonstraram todo seu repúdio através de passeatas e atos públicos. Outros escolheram uma árvore e nela penduraram as demonstrações de carinho, de dor e de revolta. Cesare di Cola, o organizador da mostra fotográfica que produzira com seu pai e mestre Giuliano di Cola, encerrou sua exposição, no Rio de Janeiro, dizendo: “A imagem geradora da árvore, que, assim como o ser humano, tem como propósito a realização plena de sua forma, remete à mediação entre as profundezas da terra e as alturas do céu, entre o sagrado e o profano, entre o visível e o invisível, remetendo ao mesmo tempo à claridada à qual tendem as coisas obscuras do homem.” Precisamos criar uma cultura contra tudo que não é justo, contra tudo o que nos oprime; precisamos criar a capacidade de sonhar com um mundo diferente. È necessário alimentar a esperança, sem apagar os fatos da memória. Giovanni Falcone morreu, mas suas idéias estão vivas, e caminham pelas nossas pernas.


